Denso e instigante, "Ausente" transforma uma relação entre professor e aluno num constante jogo de suspense e tensão sobre o que irá acontecer. A história é envolvente, os atores estão muito bem e o final é arrebatador.
Minha Cotação: * * * *
Crítica: «Ausente»
por André Gonçalves
http://www.c7nema.net/index.php?option=com_content&view=article&id=6736%3Aqueer-lisboa-2011-ausente-por-andre-goncalves
Mais uma edição do Queer, mais uma pedrada no charco a cargo de Marco Berger, que tinha já incendiado paixões e ódios no ano passado com o espantoso “Plan B”.
“Ausente” felizmente não é menos arrebatador. Da vingança infantil que se transforma em amor, o cineasta explora agora uma obsessão adolescente de um aluno pelo seu professor de educação física (Javier de Pietro e Carlos Echevarría, respectivamente, ambos magníficos), levada a novos limites, também com alguns requintes de malvadez – e culpabilidades humanas – pelo meio e pelo final. Contar mais é crime. Podemos dizer que Berger tem um olho para filmar corpos humanos e as suas imperfeições como poucos actualmente, e também para congeminar retratos de pessoas reais, saídas de uma Argentina sem modelos pré-formatados. Tal como acontecia em “Plan B”, o ritmo é lento, mas sempre insinuante, convidando sempre o espectador a acompanhar o que se vai passar, para depois lhe puxar o tapete, qual mágico a tirar coelhos da cartola. No final, uma coisa é certa: cada espectador sai com um filme diferente na cabeça, tal é a habilidade em desafiar percepções e incluir imensas ambiguidades em actos cruciais das personagens.
O realizador argentino é definitivamente uma das vozes mais interessantes que saíu do “cinema queer” dos últimos anos, uma que escapou efectivamente a rótulos “queer” - e ainda bem. De tal modo que se poderia perfeitamente imaginar um dos seus filmes num qualquer outro Festival, a ser visto por pessoas de qualquer credo, orientação sexual, identidade de género e “status” social. Estando contudo num Festival Queer, onde as expectativas são ligeiramente mais obtusas, o filme contou com uma recepção morna na sua primeira sessão, com muitas expectativas do público a saírem goradas. Para mim, “Ausente” arrisca-se a ser o filme mais memorável do certame deste ano, um filme a que atribuiria - sem hesitar - um prémio do palmarés. A ver vamos como correm os restantes 7 dias.