30 de mar de 2012

A Separação


Demorei um pouco para assistir esse filme, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. Pelo fato do filme ser iraniano (e como já assisti outros filmes iranianos com ritmo bem lento), tive preconceito. Que bom que eu assisti, e que bom que esse filme representa justamente a quebra desse meu preconceito.

O filme começa um pouco lento, de fato, para mostrar o cotidiano de uma família que vive uma separação conjugal e um homem que tem que lidar com o pai com Alzheimer. Tudo para mostrar como aquelas pessoas são comuns, todas com seus problemas cotidianos e de difícil resolução.

Um evento faz com que os personagens vivam, a partir dali, um grande conflito, em que nunca sabemos quem está com a razão. A partir desse conflito, o filme constrói um suspense psicológico intenso e aflitivo, com elementos que serão introduzidos gradativamente. A partir daí, o filme não tem, definitivamente, nada de entediante. O mais interessante é que são conflitos quase domésticos, como brigas entre patrão e empregada, ou uma filha que não sabe se o pai está ou não mentindo, ou uma mulher que está numa situação que vai contra os preceitos de sua religião; situações cotidianas, mas construídas com tanta veracidade, que nos deixam tensos pela trajetória dos personagens.

Justamente por esses problemas tão universais, que o filme consegue se aproximar ainda mais de nós, como se a história também pudesse acontecer conosco. Valeram os prêmios e também a indicação ao Oscar de roteiro original.

Minha Cotação: * * * *


CRÍTICA | CINECLICK
A SEPARAÇÃO
por Roberto Guerra
http://www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/a-separacao/id/2883


Não acontece com frequência, mas, de tempos em tempos, o espectador de cinema se depara com filmes que despertam admiração instantânea, aquele tipo de obra que chama a atenção pela condução primorosa e força de seu enredo e personagens. A Separação, escrito e dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi, é um desses trabalhos a nivelar por cima. Honesto, transita com habilidade por temas comuns a todos nós como responsabilidade, respeito, honestidade e amor sem, no entanto, se valer de artificialismos. Pelo contrário, impressiona com sua desconcertante simplicidade.

A maioria dos filmes iranianos que consegue chegar ao Ocidente partilha uma óbvia – e justa - tendência de denúncia a um regime retrógrado e cerceador das liberdades, funcionando na maioria dos casos como gritos de indignação registrados em película. A Separação, no entanto, tem escopo mais amplo, indo além do Irã e sua sociedade reprimida numa exploração bem mais complexa e universal do ser humano como um todo, não apenas como ser social e político.

O longa de Farhadi é um drama familiar, mas principalmente moral. A história versa sobre maridos e esposas, pais e filhos, justiça e religião no Irã da atualidade, mas seu embasamento está em dualidades básicas e identificáveis por todos nós, independentemente do continente em que se vive. Um filme que nos ajuda a lembrar que povos como iraniano, por mais distantes que possam parecer de nossa realidade, partilham alegrias, tristezas, decepções, esperanças e problemas básicos com a vida como nós.

A história é contemporânea e ambientada na capital iraniana, onde acompanhamos a complicada separação do casal Nader e Simin. Além da crise afetiva, uma questão se impõe aos dois: Simin deseja sair do país por achar que o lugar não oferece o ambiente ideal para o crescimento da filha, mas Nader não concorda em viajar e deixar o pai com alzheimer sozinho, o que gera a disputa pela guarda da adolescente. Enquanto a Justiça não põe fim ao conflito, Simin vai temporariamente para a casa da mãe, deixando o marido sozinho com a filha e o pai doente.

Nader, então, contrata a religiosa Razieh para cuidar de seu pai durante as tardes, enquanto trabalha e a filha está na escola. O problema é que Razieh acha errado uma mulher casada como ela trabalhar para um outro homem casado sem a presença da esposa dele. Com o marido desempregado e afundado em dívidas, aceita o emprego a contragosto, mas esconde a verdade do marido. Um acontecimento lamentável, no entanto, gera uma outra briga judicial, desta vez envolvendo Nader, Razieh e seu marido.

Dono de um domínio impressionante da técnica narrativa, o diretor imprime um ritmo gradual e regular à curva dramática do filme num crescente que culmina em clímax digno de reverência. E você, espectador, estará lá, imerso na trama e tomado por seus personagens.

Eles tomam forma graças a roteiro redondo e elenco impecável, em que se destaca Peyman Moaadi, intérprete de Nader. Atuando em estado de graça, ele imprime um realismo ao personagem que impressiona. Prova cabal de quanto um ator pode influenciar no todo de um filme. Ao vê-lo cuidando do pai doente, enfrentando os problemas de sua filha adolescente e mergulhado numa disputa judicial complicada, quase se esquece estar diante de um filme de ficção.

Em A Separação ninguém está certo ou errado. Ninguém é herói ou vilão. Seus personagens são pessoas como nós, vivendo a rotina de seus dias e lutando pelos que amam e aquilo que acreditam. Uma vitória do simples, da grandeza das pequenas coisas da vida, dos pequenos dramas cotidianos muitas vezes difíceis de enxergar. Asghar Farhadi acertou a mão ao não tomar partido de seus personagens, demonstrando apreço por todos eles. Quem sai ganhando é o espectador, que pode desfrutar desde já de um nos melhores filmes do ano.


FICHA TÉCNICA
Diretor: Asghar Farhadi
Elenco: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei ED Hayedeh Safiyari
Produção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Fotografia: Mahmoud Kalari
Duração: 123 min.
Ano: 2011
País: Irã
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Asghar Farhadi
Classificação: 12 anos

0 comentários:

Postar um comentário