Eu era uma criança muito introvertida. Dentro de Eu, portanto, tinha muito mais coisas do que por fora. Mas lógico, Eu precisava de coisas de fora para alimentar o que ele vivia internamente.Por exemplo, Eu gostava muito de cinema. Os filmes que Eu assistia logo se transformavam em histórias dentro da cabeça dele. Eu importava as informações que via nos filmes, transformava essas coisas dentro dele mesmo para depois colocar para fora, seja através de brincadeiras, escritos ou quadrinhos. Eu gostava muito de criar. Os pais de Eu, no entanto, não gostavam que Eu criasse. Achavam besteira, e chegavam até mesmo a rasgar as criações de Eu para que o menino não se sentisse estimulado.
Com o tempo e conforme se aproxima a adolescência, Eu começou a pensar que esse desejo de criar poderia, na verdade, ser uma vocação. Eu fez muitos testes vocacionais. Será que, se Eu gostava tanto de cinema, não seria para criar filmes que Eu estava destinado?
Essa crença começou a crescer dentro de Eu, que praticamente virou uma certeza, um sonho. Mas Eu não sabia se tinha talento, os pais de Eu rasgavam suas criações, o mundo destinou a Eu uma série de outros caminhos. Eu até demonstrou talento em vários deles. Será que aquela certeza de outrora era uma premissa errada?Após muito tempo, as coisas do mundo continuaram a ser absorvidas por Eu, transformadas e registradas. Eu continuava gostando de criar, pois sentia um prazer enorme nisso. Mas embora os pais de Eu não rasgassem mais suas criações, por que será que elas ainda não se jogavam no mundo?














