Há algum tempo estou devendo uma crítica do meu filme predileto de todos os tempos, e que também deu nome a esse blog, o clássico de Alfred Hitchcock, "Janela Indiscreta". Escrevi esse texto como exercício para um curso de crítica que estou fazendo, então essa é apenas a primeira versão. Achei interessante colocá-la para depois avaliar como ficarão as próximas versões após o feedback do professor. Se você tiver algum comentário, sugestão, ou algo que não gostou ou que deveria ser mencionado, não deixe de comentar.
Minha Cotação: * * * * *
CRÍTICA | BLOG UMA JANELA INDISCRETA
Uma janela para o cinema
por Fabio Pastorello
Janela Indiscreta
(Rear Window, 1954)
de Alfred Hitchcock
Ao assistirmos um filme, somos transportados para outra realidade: a vida de outras pessoas, mesmo que apenas seja representação, nos faz perceber e conhecer um pouco melhor a nossa. Essa é a essência desse filme, por muitos considerado o melhor roteiro de um filme de Hitchcock. Rivalizando com "Um Corpo que Cai" (Vertigo, 1958), está entre os melhores filmes do diretor.
L. B. Jefferies (James Stewart), o protagonista do filme, sofre um acidente durante seu trabalho como fotógrafo (todas informações que Hitchcock conta habilmente apenas através de imagens de objetos no apartamento dele). Imobilizado, ele encontra na vida dos vizinhos, observada através da janela de seu apartamento, o entretenimento para os próximos dias. Enquanto acompanhamos, junto com Jefferies, o que acontece com os vizinhos, também conhecemos um pouco mais de sua vida e de seu relacionamento com a encantadora Lisa (Grace Kelly).
Como bem retrata Hitchcock para François Truffaut no livro "Hitchcock/Truffaut Entrevistas", o homem que olha para fora, o que ele vê e como ele reage são três pedaços desse filme que representam "o que conhecemos como a mais pura expressão da ideia cinematográfica". Nesse papel de voyeur, que Truffaut salienta ser também nosso papel quando vemos um filme, Hitchcock irá contrapor o que acontece nesses três pedaços.
Inicialmente, temos o fotógrafo que namora Lisa mas hesita em se casar com ela. Em contraponto, a vida dos vizinhos lhe apresenta um painel de tipos e de relações com o casamento, desde os recém-casados até o marido que, suspeita-se, tenha assassinado a esposa. Por fim, temos todo um esforço desse fotógrafo para comprovar à namorada e aos amigos que houve realmente um assassinato, talvez uma derivação da necessidade de Jefferies comprovar sua tese de como os casamentos podem ser mal sucedidos. No entanto, quanto mais avança nessa investigação sobre o suposto assassinato, mais a esperta Lisa consegue aumentar sua cumplicidade com ele e provar que ela pode fazer parte do seu mundo.

Esses três pedaços que Hitchcock identifica caminham, afinal, de formas peculiarmente irônicas e divergentes. Quanto mais Jefferies avança no casamento problemático do vizinho, mais ele se envolve com sua potencial futura esposa. Como se o melhor conhecimento da vida dos vizinhos levasse Jefferies a também se conhecer melhor, não pelas semelhanças, mas justamente pelas diferenças. Como todos nós, ao vermos esse genial filme que traduz o que é a experiência do cinema, pensamos: será que passaríamos o dia observando a vida dos outros? Será que, como Jeff, procuramos nos outros comportamentos a corroborar teses que acreditamos? O quanto de nossas vidas foi construído justamente pelo contato com as vidas que observamos? O cinema é mesmo uma janela, não somente para o outro, mas também para nós mesmos.
FICHA TÉCNICA
Diretor: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart, Raymond Burr, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Riter, Judith Evelyn.
Produção: James C. Katz
Roteiro: John Michael Hayes
Fotografia: Robert Burks
Trilha Sonora: Franz Waxman
Duração: 112 min.
Ano: 1954
País: EUA
Gênero: Suspense
Cor: Colorido
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Estúdio: Paramount Pictures / Patron Inc.
Classificação: 14 anos.