19 de abr de 2012

Xingu


Os irmãos Villas-Bôas saem em busca de aventura, em busca de terras nunca antes visitadas. Mais tarde, esse prazer de ser desbravador não será tão agradável. O filme Xingu trabalha sobre esse tema, o do progresso versus a preservação da natureza, das culturas locais, dos índios. O progresso avança impiedoso eliminando as diferenças, os lugares intocados, as culturas e povos mais fracos. Como lidar com isso?

A trajetória desses irmãos é contada, desde seus aspectos mais humanos, até seus projetos mais nobres, como a tentativa de preservar os povos indígenas e a criação do Parque Nacional do Xingu. Num país como o Brasil, nada mais importante do que discutir justamente essa questão, a do confronto entre o progresso e a preservação. Pode existir ordem (e justiça) nesse progresso?

No meu caso, interessa ainda mais pelo contato constante que tive com lugares que conhecemos no Brasil. Lugares que visitamos numa primeira vez, e ao voltarmos, já não são os mesmos, ora descaracterizados, ora perderam o encanto natural. Não que eu venha aqui posar de defensor da vida selvagem, que eu gosto de conforto, admito, mas existem lugares que conseguem aliar o desenvolvimento local sem que ele interfira negativamente nos aspectos mais peculiares de um lugar.

Sobre o filme em si, além dos aspectos relevantes que aborda, infelizmente achei a narrativa um pouco truncada e não tão emocionante como poderia. Algumas cenas isoladas são impactantes, mas no conjunto fica aquém de uma obra empolgante ou genial. Mas de qualquer forma, é um grande filme, que merece ser visto.  

Minha Cotação: * * * *


Crítica | Cinema em Cena
por Pablo Villaça
http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/filme/ver.php?cdfilme=6578

É sintomático e revelador que a “Marcha para o Oeste” iniciada pela gestão de Getúlio Vargas em 1943 tivesse, como objetivo, transformar em espaço “útil” as terras “desocupadas” da região central do país. Encarando a população indígena com um descaso que beirava o desprezo, os iniciadores da empreitada não podiam enxergar de outra maneira aquelas terras – afinal, é preciso ser humano para possuir algo, e os índios certamente não o eram aos olhos dos estrategistas de Vargas. Assim, não deixa de ser irônico que justamente uma de suas expedições, batizada de Roncador-Xingu, tenha acabado por criar três importantes aliados para a causa indígena: os irmãos Orlando (Camargo), Cláudio (Miguel) e Leonardo (Blat) Villas-Bôas, que transformaram o bem-estar daqueles povos em uma causa pessoal.

Retratando de forma trágica o autêntico genocídio patrocinado pelas políticas de Vargas e seus sucessores, que não deixaram o Brasil muito atrás dos massacres de nativos promovidos por nossos vizinhos norte-americanos, Xingu é hábil ao ilustrar eventos tão chocantes enquanto desenvolve com talento as personalidades de seus três personagens centrais: se Orlando mostra-se um líder nato e um indivíduo pragmático ao perceber a importância de estabelecer contatos políticos, Cláudio apresenta-se como um homem sonhador e idealista que, ainda assim, percebe a razão das estratégias do irmão, ao passo que o jovem Leonardo, apaixonado e sensível, tem em sua impulsividade a sua maior virtude e o seu principal defeito. Em comum, os três dividem o carinho pela cultura nativa que encontram e que, em outra triste ironia, são corresponsáveis por corromper.

Escrito pelo diretor Cao Hamburger ao lado de Helena Soarez e Anna Muylaert (parceira habitual do cineasta), o roteiro constrói de forma delicada os primeiros contatos entre os Villas-Bôas e os índios, partindo da curiosidade mútua até atingir um entendimento crescente acerca de suas diferenças e semelhanças como humanos. Beneficiado também pelas performances carismáticas e sensíveis de Camargo, Miguel e Blat, bem como por aquelas oferecidas por um elenco secundário praticamente composto por índios autênticos, Xinguainda oferece um espetáculo visual fabuloso ao empregar as locações imponentes do centro-oeste brasileiro – e é preciso parabenizar o diretor de fotografia Adriano Goldman por jamais tentar embelezar artificialmente aquilo que já é naturalmente belo, optando, em vez disso, por uma fotografia naturalista que apenas ressalta a grandiosidade, mas também a dureza daqueles lugares (e, da mesma maneira, sua decisão de investir numa paleta mais fria nas sequências urbanas é o bastante para criar o importante contraste entre os dois ambientes frequentados pelos irmãos). Para completar, a excepcional direção de arte de Cassio Amarante consegue a proeza de resgatar um tempo perdido, recriando aldeias amplas e espaçosas e cabanas que parecem se projetar organicamente da mata.

Assim, é uma pena que o roteiro desaponte em sua estrutura episódica que obriga o montador Gustavo Giani, tão brilhante em O Banheiro do Papa e Linha de Passe, a abusar de elipses desajeitadas que constantemente apelam para o mais batido dos recursos do gênero: os letreiros que indicam bruscas passagens de tempo. (E a ideia de usar recortes de jornais para trazer informações importantes e outros saltos cronológicos, provavelmente algo presente no roteiro, tampouco é mais eficaz ou original.) Além disso, em certos momentos os personagens parecem mudar de comportamento com rapidez excessiva – e quando ouvimos um dos irmãos dizer que “o inimigo é o homem branco”, nos surpreendemos com aquela declaração súbita. Como se não bastasse, a decisão de revelar o destino de um personagem importante através de um simples telefonema chega a ser indesculpável, posto que havíamos feito um grande investimento emocional no sujeito.

De modo geral, porém, Xingu é um filme eficiente e tocante que faz justiça à memória dos Villas-Bôas e ao seu trabalho – e se mesmo com todo o esforço dos irmãos várias das tribos foram dizimadas pelos brancos (uma delas foi reduzida de 600 para 79 indivíduos), é difícil imaginar o que teria ocorrido sem a intervenção e a popularidade alcançada pelos três. E o fato de nos emocionarmos tanto ao vermos aqueles homens nas imagens de arquivo que encerram o longa é a prova definitiva de que, como narrativa, Xingu desempenhou muitíssimo bem sua função.


FICHA TÉCNICA
Diretor: Cao Hamburger
Elenco: João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié Waurá, Totomai Yawalapiti
Produção: Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro, Bel Berlink
Roteiro: Cao Hamburger, Elena Soares
Fotografia: Adriano Goldman
Trilha Sonora: Beto Villares
Duração: 102 min.
Ano: 2011
País: Brasil
Gênero: Aventura
Cor: Colorido
Distribuidora: Columbia Pictures/ Downtown Filmes
Estúdio: O2 Filmes / Globo Filmes
Classificação: 12 anos




0 comentários:

Postar um comentário