1 de set de 2012

A restauração desastrosa que virou "arte"


"Ecce Homo" restaurado

Cópia infiel
Pai, perdoai a Cecilia. Ela não sabe como se faz...

26 de agosto de 2012
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,copia-infiel,921837,0.htm

JULIANA SAYURI - O Estado de S.Paulo

Ops! Essa é a primeira impressão ao contemplar o afresco Ecce Homo, do pintor espanhol Elías García Martínez (1858-1934), "restaurado" amadoramente por Cecilia Giménez, uma senhorinha octogenária que conquistou fama internacional instantânea nessa semana. Talvez ela esperasse reações elogiosas como um belo voilà! ou um pomposo bravo! Predominaram, porém, feições boquiabertas: de um lado, artistas e carolas escandalizadas com o rosto de Jesus Cristo desfigurado a ponto de se assemelhar a um simpático macaquinho; de outro, trendsetters fanfarrões e leigos animados com os chistes espirituosos espalhados nas redes sociais mundo afora.




Cecilia Giménez nem imaginava o furor que Ecce Homo iria causar. Ela viu o afresco do século 19 esquecido no Santuário de Misericórdia de Borja, cidadezinha de uns 5 mil habitantes na Província de Zaragoza, nordeste da Espanha. Queria dar mais cor à catedral. A pintura mural de 50 x 40 centímetros estava ali, a poucos metros de sua casa, deteriorado entre fendas e salitres. Na melhor das intenções, decidiu restaurá-lo, sem pedir autorização. Ora, Borja, por que não?

Mas Cecilia errou a mão. Ela começou timidamente pela túnica vinho, mas depois passou para o pescoço e transformou a barba e a coroa de espinhos de Jesus em uma carapuça felpuda, quase um sfumato de Da Vinci sobre um retrato dos monstrinhos Ewoks, de Guerra nas Estrelas. À primeira vista, os conterrâneos pensaram que um vândalo tivesse tripudiado sobre o mural, quiçá em protesto contra a arte sacra. Mas a trama foi revelada pelo Centro de Estudios Borjanos: um emissário visitou a igreja e descobriu o painel, digamos, neovanguardista.

Juan María Ojeda preferiu outra expressão: "Destrozado", disse o conselheiro de cultura da cidade, sem dó nem piedade. Nessa semana, a historieta borjana invadiu imprensa internacional, Facebook e Twitter. E o Ecce Homo se tornou um fenômeno pop, pitoresco símbolo de uma street art da terceira idade. Anônimos fizeram versões do quadro com personagens como Chewbacca, Homer Simpson, Monalisa, Pussy Riots e Shrek, entre outros. Imprimiram o semblante bizarro nas crateras de Marte fotografadas pelo Curiosity e nos apóstolos do clássico A Última Ceia, de Da Vinci. Deram ilustre e divertidíssima fama ao afresco zaragozeño.

Nessas brincadeiras, majoritariamente inocentes, Cecilia arrebatou milhares de fãs. O madrilenho Javier Domingo fez até uma petição para manter o Ecce Homo tal qual reinterpretara a amadora, aliás, a "artista espontânea". "O trabalho ousado representa um reflexo da situação política do nosso tempo. A intervenção combina inteligentemente o expressionismo primitivo de Goya com Ensor, Munch, Modigliani e Die Brücke", garante a petição, com mais de 10 mil assinaturas.

"As brincadeiras foram engraçadas e muito engenhosas. Mas sempre há quem passe dos limites. A igreja é um templo - e deve permanecer assim", ponderou a restauradora María Luisa López Ávila, da Asociación de Conservadores y Restauradores de España, em entrevista ao Aliás. Segundo María Luisa, as autoridades nem consideram a permanência da "malograda intervenção" nos muros do santuário. Eles pretendem fazer o possível para resgatar a antiga versão.

Na verdade, o artista original não era muito conhecido além dos rincões espanhóis. Elías García Martínez estudou em Barcelona e na Real Academia de Bellas Artes de Valencia. Foi professor da Escuela de Bellas Artes de Zaragoza até 1929. Tereza García Blanc, uma de suas netas, até sabia que a senhorinha vinha dando umas pinceladas na túnica, mas não no rosto. "Quando vi a pintura final, tive um ataque de riso", Tereza contou ao El País. Já Cecilia teve um ataque de ansiedade: "¡El cura lo sabía!", disse, desesperada, tentando dividir o pecado com o padre. "Nem tive tempo de terminar o trabalho...", lamentou.

"Essa história é um mix perfeito para ter eco popular, pois une o sensacionalismo da imprensa, o sarcasmo das redes sociais e o estado da preservação artística no país", criticou o historiador espanhol Miguel Cabañas Bravo.

Nesta segunda-feira, uma equipe de especialistas visitará a cidade para ver se o afresco tem salvação. Até baterem o martelo, será que algum marchand visionário arremataria o Chewbacca sagrado?


Um comentário:

  1. Tem certas coisas q acontecem com boa vontade, mas acabam tendo repercussão impressionante...hahha
    Tadinha da senhorinha :D

    Abraço!

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