31 de out de 2011

Novas Cenas Possíveis


Ferramentas atuais impulsionam produção de curtas-metragens e documentários

Por: Guilherme Bryan e Jéssica de Souza
Publicado em 23/10/2011


http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/64/cinema2/view

Novas cenas possíveisOs Famosos e os Duendes da Morte: Esmir começou fazendo curtas (foto: © divulgação)
O cinema brasileiro vive um de seus momentos mais produtivos e rentáveis. Em dezembro de 2010, Tropa de Elite 2, de José Padilha, ultrapassou a marca dos 3 milhões de espectadores e se tornou a maior bilheteria nacional de todos os tempos. A chamada “retomada”, a partir dos anos 1990 – com o retorno da política de financiamentos –, contribuiu para aquecer a produção nacional e ampliar sua diversidade. E, com o barateamento­ decorrente das novas tecnologias e ferramentas, uma nova geração de “fazedores” de cinema, sobretudo documentários e curtas-metragens, põe a mão na massa, conquista espectadores e prêmios internacionais.

Com duração máxima de 30 minutos, o curta é porta de entrada no mundo da produção cinematográfica. Nesse formato estreou muita gente talentosa, como Jorge Furtado (diretor do curta Ilha das Flores, 1989, premiado no Festival de Berlim, e do longa O Homem Que Copiava, 2003), Cao Hamburger (do curta Frankenstein Punk, 1985, e do longa O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, 2006) e Carla Camurati (de A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal, 1987, e Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, 1995). O mesmo passo será dado agora por Esmir Filho, que teve os curtas Alguma Coisa Assim, de 2006, e Saliva, de 2007, exibidos no Festival de Cannes, na França, e estreou no ano passado em longa-metragem com Os Famosos e os Duendes da Morte.

A editora Talita Arruda, curadora do Porta Curtas Petrobras – principal canal de exibição pública e de catalogação dos curtas brasileiros na internet –, considera que a produção brasileira vive um momento de realizações amadurecidas. “As novas tecnologias barateiam, agilizam e democratizam a produção, permitindo ainda mais a exploração de temas e expressões diversas e plurais. Também permitem novos canais de veiculação. A entrada da internet potencializa a difusão e estimula o debate sobre as formas de fazer e pensar cinema”, afirma.

“A tecnologia digital alterou muitas coisas e a área do audiovisual se popularizou a partir de dois fatores novos: a democratização do acesso à produção, auxiliada­ pelas incontáveis oficinas de vídeo oferecidas em todos os cantos do país, seja como trabalho social, seja como atividade alternativa para pessoas da área; e a difusão das produções por caminhos facilitadores, como o Youtube, e até mesmo a possibilidade de gravar um DVD que pode ser copiado e reproduzido em qualquer lugar”, diz Marília Franco, professora do curso de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).


Experimentação

Outra frente de expansão do acesso ao cinema por um outro tipo de público – não habituado nem às tecnologias nem às salas comerciais convencionais – são os circuitos alternativos de exibição, de acordo com Cynthia Alario, diretora da Rede Brazucah. A produtora existe desde 2002 e já realizou exibições gratuitas para milhares de espectadores, principalmente na periferia das grandes capitais. Desde 2007, a atividade é fortalecida por uma parceria celebrada com o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região – o projeto Cine B.

Com estrutura itinerante composta por telão, projetor, pipoca e pesquisas de opinião, as mais de 150 exibições do Cine­ B levaram 50 títulos nacionais a 22 mil espectadores. A parceria criou também um selo para o lançamento de dois DVDs com cinco curtas cada um, eleitos pelo público. O primeiro deles saiu com tiragem de mil exemplares, é vendido a preços populares durante as exibições e traz as animações Historietas Mal Contadas (15 minutos) e Vida Maria (9 minutos), O Troco (11), Xadrez das Cores (22) e A Mula Teimosa e o Controle Remoto (15).

Engenheiro elétrico e animador gráfico, Márcio Ramos, diretor de Vida Maria – animação em 3D sobre mulheres no sertão nordestino e a dificuldade de se alfabetizarem –, decidiu caminhar em direção contrária aos novos canais de exibição e voltar seu trabalho não para o público da internet, mas para professores, cinéfilos, representantes de organizações não governamentais, alunos de cursos de gestão, funcionários de empresas privadas e estatais e frequentadores de igrejas. “Minha ideia não é ir em busca de milhões de cliques. Quero, por enquanto, que quem veja meu curta o faça em situação dedicada, em grupo real, e não virtual.”

Alice Gomes, jovem realizadora formada em Jornalismo, trabalhou como assistente de direção nos longas Inesquecível, dirigido por Paulo Sérgio Almeida, e Cazuza – O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho. No ano passado, dirigiu o curta-metragem Lápis de Cor, mistura de animação com live-action (inspirado em linguagem e ritmo de animação, mas filmado com atores de carne e osso), que conta a história de Cláudio, um menino pobre que vive só com a mãe, adora desenhar e acredita que com um desenho colorido conseguirá trazer o pai de volta para casa. “Esse formato é parte essencial da indústria audiovisual. É a melhor vitrine da produção do país, em que os diretores e técnicos se iniciam e podem exercer sua criatividade mais livremente”, comemora Alice.

Segundo o Porta Curtas Petrobras, os títulos catalogados entre 2010 e 2011 passaram de 5.000 para 7.200. Esses números, porém, podem ser maiores. A presença desse recurso audiovisual nas escolas também é representativa. Em abril de 2007, a própria equipe do site criou o projeto Curta na Escola. Em apenas quatro anos, cerca de 26 mil escolas se cadastraram e foram exibidos 366 curtas com aplicabilidades pedagógicas para mais de 15 milhões de alunos.

Muitas escolas de cinema incentivam a incursão dos alunos em curta-metragem, como forma de aprendizado. “O aluno faz vários durante um curso e os resultados de toda a produção são avaliados por uma banca. Se fizesse longas, faria menos e teria menos oportunidade de aprender com suas indefinições”, destaca Ana Paul, roteirista e coordenadora do curso Intensivo Digital da Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. Mas nem tudo são flores: “Se o barateamento da tecnologia deu possibilidade a quem não tinha patrocínios ou verbas próprias, ainda é necessário ter tempo, pôr gasolina no carro, fazer inúmeras ligações, arrumar recursos para direção de arte, pesquisar locações e viabilizar pessoas para formar equipe e elenco”, pondera.

Visão pessoal

O documentário também tem se mostrado importante via de acesso para os realizadores. “Há um pensamento que curtas-metragens são mais fáceis de fazer, mas ignora-se que precisam de uma narrativa e uma estética de impacto para funcionar. E isso pode ser muito mais difícil do que fazer um longa. Em uma analogia com a literatura, é a diferença entre o conto e o romance”, destaca Ana Paul.

“O documentário, marcante em toda a história do audiovisual brasileiro, vive um momento especial, catalisado por uma inédita valorização como gênero no Brasil. O cinema não ficcional me parece hoje o gênero mais inovador da produção nacional, com títulos como Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho”, avalia o crítico Amir Labaki. Ele é idealizador do festival internacional É Tudo Verdade, criado em 1994, que desde 2000 confere ao melhor longa-metragem documentário um prêmio de R$ 120 mil.

“Há quatro anos, cerca de um terço dos lançamentos nacionais em salas era de documentários, o que representa algo como 30 títulos por ano. Há 15 anos, a média era de dois”, comenta Labaki, também diretor de 27 Cenas sobre Jorgen Leth­ (2009). “Nesse período, a produção se multiplicou e se sofisticou esteticamente. Não sou o comentarista mais neutro da importância do festival nesse processo, mas muito me orgulham o pioneirismo e a persistência”, diz.

Para Pedro Butcher, editor do portal Filme B, especializado no mercado de cinema no Brasil, o gênero vem crescendo um pouco no mundo todo. “Mas, no Brasil, apesar de dar muito pouco público, tem uma produção forte, é mais bem aceito no circuito comercial do que em outros países e, em geral, é reconhecido pela crítica. Também temos circuito de arte forte, e muitos documentários são exibidos em cinemas do sistema Arteplex em sessões únicas”, analisa.

“Na produção que poderíamos chamar de mais espontânea, todo tipo de temática e formato tem sido experimentado, mas chama a atenção o exercício da narrativa em primeira pessoa, de experimentos narcisistas a investigações com valor antropológico. Sem contar uma explosão de registros realistas de pequenas comunidades, regiões pouco conhecidas, eventos populares e produções para televisão, com apoio de leis de incentivo e editais. Nesse caso, destaca-se a quantidade de trabalhos que abordam a história da música brasileira e biografias de artistas”, avalia Marília Franco, da USP. Segundo o Filme B, Vinicius, realizado por Miguel Faria Júnior em 2005, foi o documentário mais visto no Brasil nas últimas décadas: cerca­ de 270 mil espectadores.

Amir Labaki considera Santo Forte, dirigido por Eduardo Coutinho em 1999, um ponto de referência dessa nova fase do estilo no Brasil: “Esse é um marco simbólico, ao ganhar prêmio de melhor filme no Festival de Brasília, em disputa com ficções. E um marco estético, pois consolidou o dispositivo do ‘cinema de conversa’­ de Coutinho, que ele desenvolveria pela década seguinte e teve enorme influência sobre o conjunto da produção”. Coutinho é um dos mais importantes documentaristas brasileiros, desde os anos 1960, quando começou o hoje clássico Cabra Marcado para Morrer, realizado em duas etapas, antes do golpe de 1964 e depois da abertura, em 1981. Na década passada, assinou algumas obras-primas, como Edifício Master, Peões, O Fim e o Princípio e Jogo de Cena, disponíveis em DVD e reveladoras da versatilidade do diretor com a linguagem. Os documentários também são cada vez mais objeto de estudos acadêmicos, em cursos de graduação e pós-graduação. “No entanto, o conjunto de publicações sobre o assunto é ainda pequeno. Escasseiam, e não só no Brasil, reflexões teóricas que organizem um pensar sobre esse tipo de produção que se rebela contra uma análise formatada por conceitos que tentam disciplinar sua manifestação”, afirma Marília Franco, coordenadora de um grupo de pesquisa na ECA-USP, o Aruanda, justamente com o propósito de tentar suprir essa lacuna.

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